← Água CidadãRead in English →
Publicado: 2026-07-13

O Estado do Sistema de Água de Almada

Uma análise do que os números públicos realmente dizem — e porque é que a crise atual era inteiramente previsível.


No verão de 2026, as torneiras secaram por toda a Almada. Costa da Caparica, Sobreda, Charneca, Laranjeiro, Feijó — famílias passaram horas sem água, a pressão colapsou durante a noite e os camiões-cisterna apareceram nas ruas mais afetadas. O enquadramento oficial tem sido o da exceção: uma onda de calor, um aumento da população sazonal, uma "pressão sem precedentes" sobre a rede. Tudo isso é verdade. Nada disso é a verdadeira história.

A verdadeira história está escrita nos próprios números publicados pela entidade gestora, e é legível há anos. A onda de calor não partiu o sistema. Retirou apenas a última folga a um sistema que já funcionava no limite.

O sistema, em números

(Os valores desta secção são os dados de sistema publicados pela própria entidade gestora, dados do sistema, com data de fevereiro de 2024.)

A água de Almada vem quase inteiramente do subsolo. Trinta e dois furos — 93% deles fisicamente localizados no concelho vizinho do Seixal — abastecem uma rede que serve cerca de 177 000 pessoas. A infraestrutura é considerável: aproximadamente 797 km de condutas de distribuição, mais 79 km de sistema adutor, 9 estações elevatórias e 25 reservatórios com 42 células de armazenamento. Num dia médio, cerca de 46 000 m³ de água entram na distribuição. A produção diária máxima ronda os 57 500 m³.

É neste último par de números que começa o problema. O consumo médio já se situa em 80% do teto absoluto de produção. Há muito pouca folga — e uma fuga grande e permanente que vai consumindo continuamente a folga que resta.

A fuga

Se dividirmos a entrada diária pela população, obtemos cerca de 260 litros por pessoa por dia a entrar na rede. Mas grande parte disso nunca chega a ninguém. Segundo o regulador, a ERSAR, as perdas rondam os 33% da água produzida; o valor da própria autarquia aponta para cerca de 35% da água entrada no sistema que não é faturada. Retirando a água que é legitimamente usada mas não cobrada, restam perdas reais, físicas — água que se infiltra no solo — da ordem dos 11 000 m³ por dia.

Para avaliar se isto é mau, não basta olhar para uma percentagem. A medida justa que o setor da água utiliza é o Índice de Fugas da Infraestrutura (ILI, na sigla inglesa): as perdas efetivas divididas pelas perdas mínimas teóricas que mesmo uma rede perfeitamente mantida, com exatamente aquela dimensão e pressão, sofreria. Uma entidade bem gerida situa-se entre 1 e 2. Os operadores privados portugueses andam perto disso. A média das entidades públicas portuguesas é pior.

Passando os números de Almada pela fórmula habitual, a rede fica num ILI de cerca de 5 — perde cerca de cinco vezes o mínimo inevitável, ou aproximadamente 250 litros por ramal por dia. A classificação histórica da própria ERSAR para isto é direta: insatisfatória. E não é um veredicto novo — o mesmo rótulo "insatisfatória" foi atribuído às perdas de Almada já em 2018, com um valor por ramal quase idêntico (259 litros por ramal por dia).

Porque é que não se resolve sozinho

As fugas numa rede envelhecida não desaparecem; agravam-se. A tubagem velha perde mais, rebenta mais vezes, e cada rotura origina novas fugas. A única cura sustentável é substituir tubagem mais depressa do que ela se degrada. Eis o número que explica tudo:

Na última década, Almada renovou as suas condutas a uma taxa média de 0,42% por ano.

A esse ritmo, a rede substitui-se por inteiro aproximadamente uma vez em cada 240 anos. A orientação de engenharia para uma rede desta idade situa-se algures entre 1,5% e 4% por ano. Almada tem renovado a sua tubagem a uma fração do ritmo necessário apenas para impedir que a situação piore — quanto mais para a melhorar. A infraestrutura tem envelhecido consideravelmente mais depressa do que é reparada, todos os anos, há anos.

Por isso, quando a onda de calor chegou e o consumo pressionou aquele teto de 57 500 m³, não havia margem para o absorver. Cerca de 24% da produção diária estava — e ainda está — a perder-se no subsolo. As medidas de emergência contam a história com precisão: reduzir a pressão em todo o concelho entre a meia-noite e as 6h para os reservatórios recuperarem durante a noite. Reduzir a pressão de facto diminui as fugas — as fugas crescem mais depressa do que a pressão, pelo que aliviar traz uma poupança mais do que proporcional — mas, como ritual noturno permanente, é um sintoma a ser gerido, não um problema a ser resolvido.

O que poderia realmente mudar isto

As ferramentas não são exóticas nem caras, e a entidade gestora já tem a estrutura para as usar — aquela malha densa de 42 células de reservatório e 9 estações elevatórias é quase ideal para dividir a rede em zonas de medição e controlo.

Há uma ressalva honesta. Os contadores em Almada continuam a ser lidos manualmente, uma vez por trimestre. Isso, mais do que qualquer algoritmo, é o verdadeiro teto de quão inteligente este sistema pode ser — não se pode fechar o balanço em tempo real com dados trimestrais. As análises são baratas e bem compreendidas. A camada de sensores que as alimentaria é a verdadeira lacuna, e o verdadeiro investimento.

Baixar o ILI de cerca de 5 para perto de 2 recuperaria algo como 6 000 a 7 000 m³ por dia — comparável a pôr em serviço um campo de furos inteiramente novo, exceto que esta água já está paga, já foi bombeada e já foi tratada. Está simplesmente a ser perdida.

A pergunta incómoda

Nada disto é uma revelação. As perdas foram classificadas como insatisfatórias em 2018. A taxa de renovação tem sido uma fração do necessário há uma década. O regulador sinalizou-o, os relatórios documentaram-no, e a física nunca esteve em disputa. A crise atual não introduziu um problema novo — expôs um problema antigo que o calor do verão simplesmente tornou impossível de ignorar.

Por isso, aqui fica a pergunta que vale a pena deixar assente, dirigida a quem estiver disposto a respondê-la:

Se isto é conhecido, medido e nomeado há tantos anos — porque é que não está a acontecer o suficiente?


Fontes e referências

Dados do sistema (base de fevereiro de 2024)

Perdas e estado da rede

Nota metodológica: o Índice de Fugas da Infraestrutura (ILI ≈ 5), a estimativa de ~11 000 m³/dia de perdas reais, o piso UARL e o potencial de recuperação de 6 000–7 000 m³/dia são derivações do autor a partir dos valores públicos acima, usando a metodologia padrão de balanço hídrico da IWA. São estimativas, não valores auditados, e dependem de pressupostos sobre o número de ramais e a pressão média da rede.