O Estado do Sistema de Água de Almada
Uma análise do que os números públicos realmente dizem — e porque é que a crise atual era inteiramente previsível.
No verão de 2026, as torneiras secaram por toda a Almada. Costa da Caparica, Sobreda, Charneca, Laranjeiro, Feijó — famílias passaram horas sem água, a pressão colapsou durante a noite e os camiões-cisterna apareceram nas ruas mais afetadas. O enquadramento oficial tem sido o da exceção: uma onda de calor, um aumento da população sazonal, uma "pressão sem precedentes" sobre a rede. Tudo isso é verdade. Nada disso é a verdadeira história.
A verdadeira história está escrita nos próprios números publicados pela entidade gestora, e é legível há anos. A onda de calor não partiu o sistema. Retirou apenas a última folga a um sistema que já funcionava no limite.
O sistema, em números
(Os valores desta secção são os dados de sistema publicados pela própria entidade gestora, dados do sistema, com data de fevereiro de 2024.)
A água de Almada vem quase inteiramente do subsolo. Trinta e dois furos — 93% deles fisicamente localizados no concelho vizinho do Seixal — abastecem uma rede que serve cerca de 177 000 pessoas. A infraestrutura é considerável: aproximadamente 797 km de condutas de distribuição, mais 79 km de sistema adutor, 9 estações elevatórias e 25 reservatórios com 42 células de armazenamento. Num dia médio, cerca de 46 000 m³ de água entram na distribuição. A produção diária máxima ronda os 57 500 m³.
É neste último par de números que começa o problema. O consumo médio já se situa em 80% do teto absoluto de produção. Há muito pouca folga — e uma fuga grande e permanente que vai consumindo continuamente a folga que resta.
A fuga
Se dividirmos a entrada diária pela população, obtemos cerca de 260 litros por pessoa por dia a entrar na rede. Mas grande parte disso nunca chega a ninguém. Segundo o regulador, a ERSAR, as perdas rondam os 33% da água produzida; o valor da própria autarquia aponta para cerca de 35% da água entrada no sistema que não é faturada. Retirando a água que é legitimamente usada mas não cobrada, restam perdas reais, físicas — água que se infiltra no solo — da ordem dos 11 000 m³ por dia.
Para avaliar se isto é mau, não basta olhar para uma percentagem. A medida justa que o setor da água utiliza é o Índice de Fugas da Infraestrutura (ILI, na sigla inglesa): as perdas efetivas divididas pelas perdas mínimas teóricas que mesmo uma rede perfeitamente mantida, com exatamente aquela dimensão e pressão, sofreria. Uma entidade bem gerida situa-se entre 1 e 2. Os operadores privados portugueses andam perto disso. A média das entidades públicas portuguesas é pior.
Passando os números de Almada pela fórmula habitual, a rede fica num ILI de cerca de 5 — perde cerca de cinco vezes o mínimo inevitável, ou aproximadamente 250 litros por ramal por dia. A classificação histórica da própria ERSAR para isto é direta: insatisfatória. E não é um veredicto novo — o mesmo rótulo "insatisfatória" foi atribuído às perdas de Almada já em 2018, com um valor por ramal quase idêntico (259 litros por ramal por dia).
Porque é que não se resolve sozinho
As fugas numa rede envelhecida não desaparecem; agravam-se. A tubagem velha perde mais, rebenta mais vezes, e cada rotura origina novas fugas. A única cura sustentável é substituir tubagem mais depressa do que ela se degrada. Eis o número que explica tudo:
Na última década, Almada renovou as suas condutas a uma taxa média de 0,42% por ano.
A esse ritmo, a rede substitui-se por inteiro aproximadamente uma vez em cada 240 anos. A orientação de engenharia para uma rede desta idade situa-se algures entre 1,5% e 4% por ano. Almada tem renovado a sua tubagem a uma fração do ritmo necessário apenas para impedir que a situação piore — quanto mais para a melhorar. A infraestrutura tem envelhecido consideravelmente mais depressa do que é reparada, todos os anos, há anos.
Por isso, quando a onda de calor chegou e o consumo pressionou aquele teto de 57 500 m³, não havia margem para o absorver. Cerca de 24% da produção diária estava — e ainda está — a perder-se no subsolo. As medidas de emergência contam a história com precisão: reduzir a pressão em todo o concelho entre a meia-noite e as 6h para os reservatórios recuperarem durante a noite. Reduzir a pressão de facto diminui as fugas — as fugas crescem mais depressa do que a pressão, pelo que aliviar traz uma poupança mais do que proporcional — mas, como ritual noturno permanente, é um sintoma a ser gerido, não um problema a ser resolvido.
O que poderia realmente mudar isto
As ferramentas não são exóticas nem caras, e a entidade gestora já tem a estrutura para as usar — aquela malha densa de 42 células de reservatório e 9 estações elevatórias é quase ideal para dividir a rede em zonas de medição e controlo.
- Encontrar fugas em dias, não em meses. Vigiar continuamente o caudal noturno em cada zona. Uma fuga que hoje passa despercebida até ao próximo acerto trimestral anunciar-se-ia quase de imediato como uma subida da linha de base do caudal noturno. Como a água desperdiçada é igual ao caudal da fuga vezes o tempo em que corre, cortar o tempo é muitas vezes o maior ganho — sem escavar nada.
- Substituir as tubagens certas. As perdas são muito desiguais: uma pequena fração da rede causa a maior parte das fugas. Almada já sabe que o Pragal e as Brielas são os seus piores subsistemas. Um modelo de falha por troço — construído sobre idade, material, pressão, solo e histórico de roturas da tubagem — transforma esse palpite numa lista ordenada, para que a tubagem que de facto é substituída, sob um orçamento apertado, seja a que mais importa.
- Gerir a pressão deliberadamente, zona a zona e ao longo de todo o dia, em vez de um corte noturno cego à escala do concelho — transformando uma medida de emergência numa redução permanente tanto das fugas como das novas roturas.
- Prever a procura com um dia de antecedência, incorporando a meteorologia e a ocupação sazonal, para que os camiões e o abastecimento rotativo vão para onde serão precisos antes de as torneiras secarem.
Há uma ressalva honesta. Os contadores em Almada continuam a ser lidos manualmente, uma vez por trimestre. Isso, mais do que qualquer algoritmo, é o verdadeiro teto de quão inteligente este sistema pode ser — não se pode fechar o balanço em tempo real com dados trimestrais. As análises são baratas e bem compreendidas. A camada de sensores que as alimentaria é a verdadeira lacuna, e o verdadeiro investimento.
Baixar o ILI de cerca de 5 para perto de 2 recuperaria algo como 6 000 a 7 000 m³ por dia — comparável a pôr em serviço um campo de furos inteiramente novo, exceto que esta água já está paga, já foi bombeada e já foi tratada. Está simplesmente a ser perdida.
A pergunta incómoda
Nada disto é uma revelação. As perdas foram classificadas como insatisfatórias em 2018. A taxa de renovação tem sido uma fração do necessário há uma década. O regulador sinalizou-o, os relatórios documentaram-no, e a física nunca esteve em disputa. A crise atual não introduziu um problema novo — expôs um problema antigo que o calor do verão simplesmente tornou impossível de ignorar.
Por isso, aqui fica a pergunta que vale a pena deixar assente, dirigida a quem estiver disposto a respondê-la:
Se isto é conhecido, medido e nomeado há tantos anos — porque é que não está a acontecer o suficiente?
Fontes e referências
Dados do sistema (base de fevereiro de 2024)
- SMAS de Almada, "Abastecimento de Água" — população servida, água captada, número de furos, extensão do sistema adutor e das condutas de distribuição, estações elevatórias, reservatórios, volume de reserva, consumo médio diário. https://www.smasalmada.pt/abastecimento-de-agua
- Câmara Municipal de Almada, "Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada" — cobertura do serviço e população (~177 000). https://www.cm-almada.pt/servicos-municipalizados-de-agua-e-saneamento-de-almada
Perdas e estado da rede
- SMAS de Almada, "Almada Reduz Perdas de Água" — perdas reais de 259 litros/ramal.dia em 2018, classificação "insatisfatória", Pragal e Brielas identificados como piores subsistemas, programa de redução de perdas POSEUR. https://www.smasalmada.pt/en/almada-reduz-perdas-de-%C3%81gua
- ZAP / Expresso, "Almada: mais de 1/3 da água perde-se ou não é faturada" — valor da ERSAR de 33,4% de perdas, valor municipal de ~35% não faturada (dos quais ~3,7% consumos autorizados não faturados, ~31% perdas reais e aparentes), taxa média de renovação de condutas de 0,42%/ano na última década. https://zap.aeiou.pt/almada-mais-de-1-3-da-agua-perde-se-ou-nao-e-faturada-reposicao-total-so-em-2-a-3-semanas-753769
- Contexto nacional da ERSAR (RASARP): valores médios de referência de água não faturada e perdas reais para operadores públicos vs privados. Reporte do regulador sintetizado pela APEMETA. https://www.apemeta.pt/pt/noticia/a-ersar-publica-o-relatorio-anual-de-caraterizacao-dos-servicos-de-aguas-e-residuos-rasarp-2024/
Nota metodológica: o Índice de Fugas da Infraestrutura (ILI ≈ 5), a estimativa de ~11 000 m³/dia de perdas reais, o piso UARL e o potencial de recuperação de 6 000–7 000 m³/dia são derivações do autor a partir dos valores públicos acima, usando a metodologia padrão de balanço hídrico da IWA. São estimativas, não valores auditados, e dependem de pressupostos sobre o número de ramais e a pressão média da rede.